A personagem Manuela é uma das mais interessantes e complexas da história da TV brasileira. Trata-se de alguém maravilhoso que só faz o bem, altruísta e amiga, mas eternamente incompreendida pela mãe Eva. A Manu abriu mão de sua própria adolescência para acolher a filha da irmã em coma como sua própria filha construindo nestes cinco anos uma relação maternal com a criança. A proximidade com o Rodrigo fez nascer um sentimento de amor entre eles até que acabaram se casando. Entretanto a Manuela nunca abandonou um sentimento de culpa em relação à irmã.
A personalidade da Manuela é assim: ela quase pede licença para existir, acredita que construiu sua vida sob uma espécie de legado da irmã, e que vive em função disso. Por isso mesmo, o retorno da irmã Ana joga a Manu num confuso sentimento de amor, culpa e insegurança como se ela não tivesse direito a nada e de repente ela se sente tão sem chão quanto a Ana.
Manuela: a mãe de Julia.
A relação entre Manu e Julia é de mãe e filha, alguém pode negar? Uma das acusações da Eva e do público é que a Manu "roubou" a filha da Ana. Então eu pergunto: o amor é algo que se pode "roubar"? O amor entre pais e filhos é uma obrigação? Acaso já nasce pronto ou vem escrito no DNA? O amor entre pais e filhos é construído no dia-a-dia, na relação de proteção, amor e cuidados que caracteriza a mãe em relação à filha. Por isso a Manuela é mãe da Julia e isso não tem cada a ver com "injustiças em relação à Ana". Não seria sincero obrigar a Julia a chamar a Manu de tia quando o amor entre elas é de mãe e filha. A Manu se envolveu com o Rodrigo numa armação do destino, também não teve culpa, mas jamais se permitiu a liberdade de não se sentir culpada.
Mas porque, apesar de ter feito sempre o bem e de querer o bem de todos, a Manu se sente tão culpada e aceita passivamente as acusações da Eva de ter "roubado" a vida da Ana ou de estar "vivendo a vida da Ana"? O sofrimento da Manu está em ser total doação, apagar-se a si mesma e colocar os sentimentos dos outros acima dos dela mesma. Por isso a Manuela sente estar ocupando o lugar da irmã. Há muitas “Manus” por aí, pessoas maravilhosas e incompreendidas.
Ana e Manuela.
O despertar da irmã Ana é algo maravilhoso para a Manuela, entretanto caiu como uma bomba destruidora abalando toda a estrutura da vida que a Manu construiu e colocando-a de frente com a grande dúvida de sua vida: ela acredita estar vivendo a vida da irmã e consequentemente se acha em dívida com a Ana e que nada do que construiu é seu de verdade. A Manuela se engana muito, pois ninguém pode saber se a relação Ana e Rodrigo daria certo, se a Ana conseguiria abrir mão da carreira de tenista, enfrentando mãe, treinadora e patrocinadores para formar uma família com o Rodrigo. Nós não sabemos disso e, embora muitas pessoas estejam propensas a acreditar em contos de fadas juvenis de amores eternos com finais felizes, ninguém pode saber ao certo qual teria sido o destino do casal se nãohouvesse o acidente. A Manuela também construiu com seu talento um Bufet e isso permitiu que o casal prosperasse como empresários, fato que a relação Rodrigo e Ana não seria capaz de fazer. A Manuela não vivia a relação tóxica da Ana com a mãe Eva, portanto estava mais livre para construir seu casamento do que a Ana caso o acidente não tivesse ocorrido.
Mas na cabeça da Manuela, ela vive a vida da irmã e se sente no dever de devolvê-la de alguma forma, como se fosse possível, ao mesmo tempo em que sabe que se fosse possível a Ana tomar seu lugar como esposa de Rodrigo e mãe de Julia, ela Manuela se veria repentinamente privada de tudo aquilo que construiu nestes cinco anos. E quanto ao investimento emocional na relação com Julia e Rodrigo? Este grande dilema na cabeça de Manuela transforma o retorno da irmã em algo ao mesmo tempo maravilhoso e ameaçador. E isso a faz sentir ainda mais culpada.
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